Created with Sketch.

Capins invasores trazem prejuízos à pecuária

Eles estão presentes em várias regiões do País, geram perdas de no mínimo 30% e exigem protocolos próprios de controle.

Denis Cardoso

Não é de hoje que os pecuaristas brasileiros enfrentam problemas com capins invasores de pastagens. Agressivos e resistentes, mas de baixo valor nutricional, eles são encontrados em várias regiões do Brasil e trazem grandes prejuízos econômicos, porque competem por espaço, água, luz e nutrientes com as forrageiras cultivadas.

Segundo Adilson Aguiar, professor da Faculdades Associadas de Uberaba (Fazu), níveis baixos de incidência dessas plantas daninhas reduzem a produção de forragem em 30%; níveis médios, em 55% – 70%; e nível alto, em 55% – 70%, podendo levar à perda total da pastagem. “De maneira sequencial, ocorre redução na produção, diminuição na capacidade de suporte do pasto, perda de qualidade do capim, queda no desempenho animal e menor produtividade por hectare”, ilustra. Além disso, na tentativa de controlar tardiamente as plantas infestantes, tem-se aumento considerável nos custos e depreciação no valor da propriedade, devido à degradação das pastagens.

Cinco capins invasores fazem parte da “lista negra” de Aguiar: o annomi (Eragrostis plana); o navalha, também conhecido como capim-duro, navalhão ou cabeçudo (Paspalum virgatum); o capeta ou rabo-de-raposa (Sporobolus indicus); o amargoso (Digitaria insularis) e rabo-de-burro (Andropogon bicornis). Carlos Peres, coordenador de Produtos e Mercados de Pastagens da Arysta LifeScience menciona ainda o capim-sapé (imperata brasiliensis), gramínea que também tem potencial para se transformar em invasora preocupante. Trata-se de uma planta com semelhança morfológica, fisiológica e bioquímica com as forrageiras cultivadas. Isso torna seu controle extremamente difícil, pois o pecuarista não consegue perceber a infestação e controlá-la a tempo.

A distribuição geográfica dessas invasoras é ampla. O capim-navalha é encontrado nos Bioma Amazônico (norte do Mato Grosso, Pará, Acre) e Mata Atlântica (leste do Nordeste e Sudeste). “Ele tem infestado fortemente áreas úmidas, exigindo reforma e onerando o pecuarista”, explica Márcio Henrique Drehmer, gerente de herbicidas da Nufarm Brasil. Já o capim capeta se espalhou por várias partes do País. Além dos biomas já citados, ele aparece nos cerrados do Centro-Oeste, no oeste baiano e no Pantanal (mato Grosso e Mato Grosso do Sul). O annoni está restrito à Região Sul, onde já fez estragos consideráveis. Somente o capim navalha conta, até o momento, com um herbicida seletivo, embora as empresas prometam novos lançamentos para futuro próximo.

 Inimigos temíveis

Os capins invasores estão se tornando uma grande ameaça para a pecuária porque são plantas nativas ou naturalizadas, adaptadas às condições do ambiente em que se inseriram e, portanto, com alta capacidade de colonização. O Sporobolus indicus, por exemplo, originário da Índia, faz jus ao nome popular de “capeta” que recebeu no Brasil. Conforme explica Alcino Ladeira, pesquisador da Corteva Agriscience, uma touceira desse capim produz 300.000 sementes/ano, mais de 80% viáveis. Ele é resistente à seca, cresce em colos compactados, ressecados, rasos e pedregosos; suporta o fogo; sementeia quase o ano todo e, pelo fato de ser rejeitado pelos animais (tem colmos duros), abafa as gramíneas cultivadas. “O produtor gasta muito dinheiro com reforma na tentativa de eliminá-lo. O controle das invasoras de folhas estreitas é a nova fronteira do mercado de herbicidas para pastagens”, antecipa Ladeira.

A navalha é outro capim de baixo valor nutricional que se multiplica rapidamente (produz de 8.000 a 15.000 sementes por ano). Tem folhas cortantes, daí seu nome.

“Como gosta de solos úmidos, se tornou um sério problema nas regiões atingidas pela síndrome da morte do braquiarão, na Região Norte”, explica Drehme, da Nufarm.

Tanto as sementes dessas duas gramíneas quanto as do annoni são muito longevas. Testes realizados em laboratório com germoplasma de capim-capeta, por exemplo, mostraram que 75% de um lote armazenado por 10 anos germinaram. Segundo Aguiar, outra característica desses três capins é que suas sementes têm dormência e germinam de maneira desuniforme, gerando sucessivas gerações de plantas e contínua reinfestação.

Por serem pequenas e leves, elas podem ser dispersadas pelo vento, chuvas, implementos agrícolas e animais. Os equinos gostam das sementes de navalha, que espalham por meio de suas fezes. Já as de capim-capeta são expulsas da panícula envoltas em um composto viscoso, que, em presença de umidade (orvalho, água da chuva), aderem ao que encontram pelo caminho (pelagem de animais, roupas, implementos). As sementes de amargoso também têm capacidade de aderência, por serem pilosas. Além disso, essa planta se propaga por rizomas. Também muito prolífero (cada planta produz 300.000 sementes/ano), o annoni ainda tem efeito alelopático sobre as gramíneas cultivadas, dificultando seu desenvolvimento.

Controle difícil

Com tantos mecanismos de sobrevivência, entende-se porque é tão difícil esses capins invasores. “Alguns pecuaristas tentam eliminá-los pelo fogo, mas com isso, acabam quebrando a dormência de suas sementes e favorecendo sua proliferação”, observa Aguiar. Segundo ele, antes de se iniciar qualquer tentativa de controle, é fundamental levantar o nível de infestação da área, para se escolher entre recuperação e reforma. Vale a pena recuperar quando a planta forrageira ainda cobre boa parte do solo e a infestação por capins invasores é inferior a 10% da composição botânica da pastagem, concentrando-se mais em reboleiras e malhadouros.

Nestes casos, o professor da Fazu recomenda ajustar a taxa de lotação à capacidade de suporte da pastagem, eliminar as invasoras e corrigir/adubar o solo. Caso o produtor opte pelo arranquio das plantas, deve depois queimá-las. “Este, contudo é um trabalho hercúleo, lento e caro”, ressalta o consultor Wagner Pires. Os melhores resultados, em caso de baixa infestação, têm sido obtidos com controle químico. No Sul, onde as pastagens são baixas, o aplicador seletivo Campo Limpo tem sido eficaz no combate ao annoni, pois sua plataforma de tubos umidificados com glifosato passa apenas sobre o capim invasor, que é mais alto, deixando o pasto nativo intacto.

No Norte, tem-se usado a enxada química seletiva, que permite o controle dos capins invasores por contato, “Na falta dessas alternativas, pode-se usar um pulverizador costal, desde que se aplique o glifosato bem no miolo da planta, sem levantar névoa, com baixa pressão nos espirros”, diz o consultor Wagner Pires.

Outra opção, segundo Aguiar, é fazer pulverização aérea em baixo volume, pois a fitotoxidez do glifosato sobre o pasto é menor do que na aplicação costal ou tratorizada. No caso do capim navalha, a boa notícia é que acaba de ser lançado no mercado um produto, à base de Imazapique e Imazapir, que se mostrou eficaz no extermínio total desse invasor. Por enquanto, o registro abrange apenas essa espécie. Wagner Pires diz ter obtido bons resultados em experimentos conduzidos em fazendas.

“Não somente com capim-navalha, mas também com capim-duro e outras invasoras de folhas estreitas”, diz.

Quando reformar

Se o estande de plantas forrageiras na pastagem está baixo, desuniforme, com falhas, e os capins invasores se encontram dispersos pela área, superando 10% de sua composição botânica, a única saída é reformar. Para isso, o produtor pode escolher o método direto ou indireto. No direto, adota-se a seguinte sequência de procedimentos, segundo Aguiar: dessecação da vegetação no último mês de chuvas da região, para eliminar totalmente as invasoras de folhas estreitas; gradagens pesada e intermediária do solo durante a seca, com intervalo de um mês entre elas; aração invertida, um mês antes do plantio da pastagem; uso de grade niveladora, semeadura ou plantio de mudas; cobertura das sementes ou das mudas; e aplicação de herbicida pré-emergente.

A reforma por método indireto se faz via integração lavoura/pecuária. “Quando é possível introduzir uma lavoura na área após dessecação e preparo do solo, o controle fica mais eficaz e seguro, porque durante o ciclo da cultura agrícola é possível usar um amplo espectro de ingredientes ativos de herbicidas seletivos às lavouras, mas que controlam a maioria dos capins infestantes”, afirma o professor, acrescentando que, neste caso, é possível aplicar herbicidas em pré-plantio, em pré-emergência, e em pós-emergência. Os melhores resultados de controle dos capins invasores em reforma têm sido obtidos justamente com ILP ou com plantio de Tifton 85 por meio de mudas, o que também permite aplicação de herbicida seletivo no pré-plantio, pré-emergência e pós-emergência.

Métodos preventivos

De nada adianta o produtor reformar as pastagens, contudo, se não tomar medidas preventivas para evitar reinfestação da área. Aguiar recomenda tomar especial cuidado com a compra de sementes forrateiras. Materiais sem procedência ou piratas podem estar contaminados não apenas por fungos, mas também capins invasores. O ideal é trabalhar com sementes com alto porcentual de pureza e tratadas. Outra medida importante é adotar um protocolo de recebimento de animais na propriedade, de forma a evitar que eles defequem em áreas livres de invasores. A limpeza de roupas e calçados dos trabalhadores (além de implementos, máquinas e veículos) ajuda a evitar ou diminuir infestações.

O bom manejo da pastagem também é essencial para o controle de invasoras de folhas estreitas, pois garante às plantas forrageiras vigor suficiente para competir com as infestantes, evitando sua proliferação. Para isso, é necessário escolher cultivares adaptadas às condições de clima e solo na região; estabelecer o manejo do pastejo com base em alturas-alvo específicas para cada espécie de planta forrageira; ajustar a taxa de lotação à capacidade de suporte do pasto; controlar pragas e corrigir/adubar o solo.

Segundo Aguiar, a prevenção é possível. A Austrália, que também sofre com o capim capeta, instituiu um programa nacional de manejo integrado para combate-lo, que inclui comunicação de infestação por parte dos produtores e visitas técnicas às propriedades. Em 2007, 30% das pastagens daquele País estavam infestadas, mas eles conseguiram reverter esse quadro. “No Brasil”, diz o professor, há certa negligência em relação aos prejuízos causados por esses capins. “Cabe à pesquisa, em parceria com a indústrias de herbicidas, buscar alternativas viáveis para o problema. ”

Fonte: Revista DBO, Especial Pastagem, páginas 82 a 86, Novembro 2018